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O que os guardiões das chaves para Hollywood procuram?

Atualizado: 30 de Mar de 2018

Conheça o que os leões de chácara dos estúdos de Hollywood buscam num roteiro.



E se os roteiristas pudessem conhecer a perspectiva dos caras que têm nas mãos as chaves para Hollywood - o que amam, o que odeiam e o que procuram nos roteiros? A Vulture entrevistou sete profissionais com este objetivo, o de derrubar os muros de Hollywood com informação. Então sente-se e desfrute de algumas pílulas de sabedoria e conheça a perspectiva de alguns dos maiores produtores e executivos de Hollywood.


"Será que esses personagens e essa trama vão resistir ao teste do tempo?"

Quais são os roteiros que vocês acham mais interessantes?


“Eu me pergunto: ‘Será que esses personagens e essa trama vão resistir ao teste do tempo? Essa é uma história que encontrará eco no mundo atual?’ Eu tendo a buscar algo fresco e que me surpreenda”, responde Michael Barker (O Tigre e o Dragão, Tudo sobre Minha Mãe e Meia-Noite em Paris).


Kristin Burr (Doce Lar, A Proposta e Os Muppets) disse que as histórias que ela mais quer contar são “emocionantes, sinceras e esperançosas”. “O mundo pode ser sombrio às vezes, então eu quero que você, ao sair do cinema, se sinta melhor do que quando entrou”.


Michael DeLuca deu uma resposta apaixonada e muito particular. “Eu amo o escapismo, mas o que me deixa realmente excitado são histórias da vida real; filmes como os que fiz com [os produtores] Scott Rudin e Dana Brunetti – A Rede social, O Homem que Mudou o Jogo e filmes como A Hora Mais Escura e Argo”. Helen Estabrook (Amor Sem Escalas, Jovens Adultos, Whiplash) está procurando “qualquer coisa nova e estranha, desde que seja inteligente e emocionalmente honesta”.


“O mundo pode ser sombrio às vezes, então eu quero que você, ao sair do cinema, se sinta melhor do que quando entrou”.

Lynda Obst (Sintonia de Amor, O Pescador de Ilusões, Interestelar) quer encontrar histórias que “corram perpendicularmente à narrativa política, mas que lancem luz sobre ela, e histórias que revelem algo comovente e profundo sobre o personagem”. Will Packer (Pense como Eles, Straight Outta Compton: A História do N.W.A. e Girls Trip) disse: “[Os scripts que me interessam] são aqueles que representam autenticamente a perspectiva, estilo de vida, cultura, lutas e alegrias de pessoas reais. É por isso Girls Trip funcionou: o filme tinha nuances que os outros não tinham. Ele deu às mulheres, independentemente da etnia ou de sua história, um desejo de ser livre”.


Essas personagens de Hollywood vão contra a falsa noção de que todos os produtores querem blockbusters com potencial de virar franquia. Embora existam na indústria quem busque esses scripts - Hollywood é um negócio -, a maioria dos produtores está procurando roteiros únicos que irão ressoar com as audiências de muitas maneiras diferentes, seja por escapismo definitivo ou por exibir personagens e histórias fortes.


Quais são as tendências mais irritantes nos roteiros de hoje?


Burr odeia a violência que vê por aí. “Violência pela violência, apenas. Eu admiro quem domina o ofício de escrever sequências de ação e de luta, mas me parece que a enorme quantidade de roteiros com personagens assassinos tende a celebrar a violência e a destruição sem propósito ou repercussão”.


DeLuca não curte roteiros que seguem rigidamente fórmulas preconcebidas. “A devoção servil à fórmula ou qualquer coisa derivada ou que ande à sombra do sucesso de outro filme pode ser um pouco broxante. As pessoas preferem a planura da imitação a dar a cara à tapa com doses cavalares de originalidade. [Também detesto] filmes que são iscas estruturadas para agradar os júris de festivais em vez de investir na originalidade e na inovação”. Estabrook parece concordar com essa noção e diz: “Eu sempre fico irritado quando leio algo que parece que foi escrito apenas para vender. É muito claro quando alguém escreve algo em que realmente acredita”.


“É muito claro quando alguém escreve algo em que realmente acredita”.

“Comédias auto-referenciais cujos personagens comentam sobre o que está acontecendo no filme. É um estilo de escrita bonitinho que dá uma piscadinha para a plateia e diz: ‘É brincadeira!’ Costumava ser engraçado nos filmes de Will Ferrell no início dos anos 2000 – ele sabia extrair risadas disso. Mas agora está exagerado. Além disso, os scripts que possuem personagens falando sobre filmes me irritam. Quentin Tarantino se dar bem com isso, mas é algo que tira a plateia totalmente do filme. É como lembrar ao público que eles estão sentados em um cinema. E o trabalho do roteirista é fazer com que o público esqueça disso”, disse o produtor Jason Blum (Atividade Paranormal, Whiplash e Corra!).


Obst não é fã de filmes deprimentes ou antigos remakes cinematográficos de programas de TV. “Eu odeio slasher movies e futuros distópicos – acho preguiçoso, repetitivo e deprimente. Também odeio a má ciência na ficção científica, especialmente quando um pouco de pesquisa poderia corrigir a falha facilmente. O país já é burro o suficiente sem que a gente colabore com isso. Além disso, não gosto de filmes que vêm de séries de TV. Considero um gesto deprimente de falta de confiança no mercado e, ao mesmo tempo, uma confiança exagerada no marketing.” Packer culpa as expectativas dos estúdios, distribuidores e financiadores. “Trata-se menos de falta de criatividade do escritor e mais sobre o que investidores, estúdios e distribuidores estão obrigando os escritores a escrever”.


Barker é ainda mais específico: “Os roteiros americanos tendem a ser irritantemente longos. Os roteiros que recebemos de escritores europeus como Michael Haneke são mais curtos. Também é muito irritante quando, depois de 15 ou 20 páginas, você ainda se pergunta 'O que é isso? O que está acontecendo?’”


Seja o tamanho, falta de originalidade ou um desgosto específico em relação a um gênero em particular ou como este gênero é escrito, há informações e atalhos claros para os escritores nestas palavras.


O que você costuma recusar?


“Filmes de terror. Mas sou fã de westerns”, comentou Barker. Estabrook concorda com Barker: “Eu teria dificuldades em comprar um script de terror. Para mim é o gênero que melhor usa e ao mesmo tempo subverte os padrões estabelecidos. Eu não sou tão versado no gênero para fazer um filme de terror que seja realmente bom.” Ela também não gosta de scripts que tenham “péssimas descrições de personagens femininas”.


Burr foca em scripts voltados para crianças. “Quando tentam escrever para crianças fazendo com que elas se sintam menos inteligentes é uma porcaria. Eu ainda assisto meus filmes favoritos de quando eu era criança porque eles têm personagens inteligentes que engajam o público”, afirma a ex-VP de Live Action da Disney.


“Quando tentam escrever para crianças fazendo com que elas se sintam menos inteligentes é uma porcaria”.

Os filmes que esses profissionais deixam de lado são claramente baseados em preferências pessoais. No final, o cinema é subjetivo. Produtores como Jason Blum adoram o horror e se destacaram no gênero.


Quais são os melhores scripts que já leram?


Barker elenca seus escritores favoritos: “David Mamet sempre foi espetacular. Nunca lemos os scripts de filmes de Woody Allen, nosso conhecimento prévio sobre um projeto dele é mínimo; lançamos o destino ao vento”.

Os outros são mais específicos. Blum confessa: “A Entidade. É um filme que não mudou muito do script para a tela. Assim como Corra!”.


DeLuca adora scripts prontos para gravar. “Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson, e A Rede Social, de Aaron Sorkin. Eles basicamente gravaram os scripts que eu li. E isso é muito raro”.


Obst elogia um clássico subestimado e às vezes esquecido, estrelado pelo falecido Robin Williams. “O Pescador de Ilusões, de Richard LaGravenese”.


E quanto ao formato, estrutura e estética?


Quando perguntado se um roteiro deve seguir uma fórmula específica, DeLuca responde: “Não. Quase tudo o que fizemos, começando com Atividade Paranormal, quebra o molde. Esse foi um filme de 80 minutos com um primeiro ato de 45 minutos, e o primeiro grande susto ocorre no meio do caminho. Em filmes high concept é muito arriscado quebrar a estrutura de três atos. Mas quase todos os filmes que fazemos desafiam a noção de que existe uma fórmula p