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Livros que todo roteirista deve ler

Atualizado: 14 de Set de 2019

Estes são os livros essenciais que me formaram como roteirista



Sempre falo da minha lista de leitura para desenvolvimento da arte de escrever roteiros, mas nunca entrei no detalhe da razão pela qual cada um desses livros é tão importante para mim. Este post é longo e é sobre isso.


Num local de destaque, antes de qualquer um, eu coloco um livro que me apareceu tardiamente, mas que mudou minha concepção da escrita de roteiro: Manual de Roteiro - Manuel O Primo Pobre Dos Manuais de Cinema e TV, de Leandro Saraiva e Newton Cannito. E por que ele é tão importante pra mim? Em primeiro lugar, porque é brasileiro e oferece suas valiosíssimas informações com foco muito grande nos produtos do mercado nacional, que é em última instância onde atuo. Segundo, porque fornece toneladas de informações teóricas importantíssimas pro domínio da dramaturgia, inclusive traçando paralelos entre os gêneros teatrais e o cinema. E terceiro, porque é bem humorado, nem um pouco maçante e muito profundo. Cada vez que abro este livro descubro algo novo. É daqueles que não envelhecem e merece sem dúvida uma nova edição.


Depois, vem o Manual do Roteiro, do Syd Field. É um dos mais antigos da safra contemporânea, é o primeiro a apresentar claramente a estrutura de três atos e seus pontos de virada e a dar um panorama sobre a formatação correta de um roteiro. Sua importância reside muito mais numa apresentação suave do ofício do roteirista e das noções de storytelling. Por isso é tão importante, para tornar a entrada na vida do roteirista mais prática e leve.


Save the Cat!, do Blake Snyder, se aprofunda muito mais na questão do storytelling. Apresenta uma beat sheet (planilha de pontos chave do filme) que é absolutamente útil para qualquer tipo de roteiro e inclusive para a escrita de romances. Foca muito mais no cinema comercial high concept, mas seus fundamentos são universais. Como diz o Mckee, não é sobre fórmulas (apesar de parecer), mas sobre formas universais da narrativa. E, além de tudo, é uma delícia de se ler.


Outro nacional nesta lista, e que acaba de ganhar uma grande revisão numa edição atualizada e ampliada, é Da Criação ao Roteiro, do Doc Comparato. Mais técnico, mais profundo, sua absoluta vantagem e o que faz dele indispensável na prateleira de qualquer roteirista é a sua identidade com a escrita de roteiro nacional. Os roteiros brasileiros têm uma influência significativa do formato folhetim e do cinema europeu. O Doc quebra um pouco isso, apresenta fundamentos profundos de storytelling e mostra várias especificidades de formatação e terminologia a que os produtores brasileiros já se habituaram e que diferem das suas contrapartes americanas.


O maravilhoso Story, do Robert McKee, é daqueles amados e odiados em igual medida, seu ator ganhou até uma sátira do Charlie Kaufman em "Adaptação". Ele disseca o cinema e a estrutura narrativa, cria conceitos que na verdade são nominações de formas tão universais que remetem a todo o cabedal narrativo da humanidade, voltando pelo menos 4000 anos. Muitos acham um livro complexo de se ler. Eu não acho, mas para os recem saídos do ensino médio, é bom segurar um pouco. O McKee exige certa experiência de vida, como um bom Hermann Hesse ou um T.S. Elliot.


O quinto livro é o essencial O Herói de Mil Faces, do Campbell. O cara identificou e normatizou o conceito do monomito, entrou fundo na jornada do herói e mostrou como nossas narrativas, por mais que difiram na superfície, têm uma essência idêntica, supracultural. Mergulhar na alma do storytelling é obrigação de todo roteirista. Tem um pequeno problema: é uma leitura arrastada. Campbell não é um estudioso tão hábil na escrita quanto Malinowski, Lévi-Strauss ou Humberto Eco, mas seu texto é relevante e codifica o conceito da jornada do herói.


Por derivação do livro acima, vem A Jornada do Escritor, do Vogler, em que o Campbell e seus conceitos são aprofundados na estrutura do cinema. É fácil de ler, abre mentes e vai dar um salto na qualidade de sua narrativa.


O meu predileto para TV é Writing the TV Drama Series, da Pamela Douglas. Neste livro aprendemos como estruturar uma série dramática, os prazos reais de entrega numa indústria consolidada como americana, como estruturar um bom policial procedural (um gênero que ocupa quase metade dos slots de séries no mundo) e é um banho de realidade nos sonhos de quem sai da faculdade de cinema, inclusive trazendo entrevistas maravilhosas.


Ainda na seara da TV, o incrível Como Escrever Séries: Roteiro a Partir dos Maiores Sucessos da TV, da Sonia Rodrigues, usa uma abordagem mais focada no mercado nacional. Eu tive a oportunidade de fazer Mentoring com a Sonia e ela é incrível: senhora do seu conhecimento, focada, direta, sem reme reme. E seu livro é assim. Todos deviam ler.


Alternative Scriptwriting: Beyond the Hollywood Formula, do Dancynger, está perto do final da lista de propósito. Ele serve para você jogar tudo o que você leu até agora no lixo, pensar de novo formas originais de se fazer roteiro de cinema e TV, retomar todo este conhecimento que você já achava inútil e perceber que, para se perverter uma fórmula, é necessário que você conheça esta fórmula. O melhor exemplo é ver as obras iniciais de Picasso. Antes de ser cubista, ele era retratista de linhas clássicas com domínio perfeito da técnica. Este livro aparece no final porque pressupõe-se que o domínio da técnica já está absorvido.


Dois livros podem até falar um pouco sobre a estrutura narrativa, mas seu principal mérito — e mérito que ambos guardam com louvor — é justamente falar do ofício do roteirista, suas verdades, suas lutas, a forma como deve se comportar e atuar no mercado. São eles: O Roteirista Empreendedor, do Bill Labonia, e Breakfast With Sharks, do Michael Lent. Ambos mostram sem rodeios o que é a vida do roteirista e o que ela exige em termos de entrega, profissionalismo e sacrifício. O livro do Bill leva ainda uma vantagem: adapta esta realidade ao Brasil e seu blog de mesmo nome é minha primeira visita todo dia de manhã.


Como bônus na lista recomendo a Poética, de Aristoteles, para que a gente compreenda o quanto estas formas são universais. Arriscaria dizer até que, para um leitor atento, Aristóteles é talvez o único que você realmente precise ler. Recomendo ainda o facílimo de se ler How to Write a Movie in 21 Days, do Vik King, porque foi a inspiração do Blake Snyder para escrever o Save the Cat! e porque instaura uma rotina de escrita muito útil e pequenos métodos e macetes para despertar a criatividade. Já segui o passo a passo do livro e realmente terminei o roteiro de um longa em 21 dias. Um roteirista profissional deve ser capaz de entregar um longa finalizado e polido em no máximo três meses (o ideal é menos) e um roteiro de série em no máximo um mês (o ideal é metade disso) para ter uma vida confortável. As técnicas do Vik são incríveis pra ajudar nesta inundação de eficiência sem que se perca a qualidade.


Há muitos outros autores importantes, Michael Hauge, Jean-Claude Carrière e por aí vai. Há todos os livros de literatura que pra mim todo roteirista deveria ler para expandir fronteiras da mente, como Guimarães Rosa e Dostoiévski, além de leituras sobre atuação, como Stanislavski, poesia, como Neruda, Pessoa ("Mensagem" é fundamental para qualquer escritor), Drummond, Jorge de Lima, Camões (quem não leu "Os Lusíadas" está capenga na formação) e T.S. Elliot, psicologia, como Freud, Lacan e Jung, e tudo o mais que aparecer pela frente. Roteirista que não lê e não vê filmes será sempre um roteirista capenga, mesmo que seu lance seja escrever filmes puramente comerciais. Os melhores, os grandes do ofício, são apaixonados pelas artes. Me chame de esnobe, mas é nisso o que acredito. Cinema é conhecimento agregado para aumentar sua autocrítica e seu repertório de influências.


Sobre formatação, o livro definitivo é The Screenwriter's Bible, do David Trotier (pegue a versão atualizada, a sétima edição é de 2019). Tudo o que você precisa saber sobre a forma correta e corrente de se formatar um roteiro está lá. Há no entanto manuais precisos e softwares gratuitos. Não reside na formatação a importância do roteiro (apesar de ser mandatório dominar a formatação correta, é óbvio, sob pena de se perder um contrato por mostrar amadorismo).


A nova safra de roteiristas brasileiros pode diferenciar-se se tiver como foco a preocupação primordial com a estrutura e com os fundamentos do storytelling. A partir daí os diálogos geniais surgirão, creia-me.


Espero que este post seja útil especialmente aos iniciantes. E, com dedicação, mata-se esta lista completa em dois a três meses. Basta espanar a preguiça.


Quer saber mais? Não deixe de ler estes posts:


- Como se tornar um roteirista (para quem quer fazer transição de um hobbie para uma profissão);

- 10 mandamentos do roteirista para ter trampo a vida toda (para quem quer se manter trabalhando na indústria, independente de crises passageiras);

- 10 Dicas para aguçar a criatividade (travou? bloqueio criativo não é desculpa, veja como se livrar desse impasse).


Acompanhe todos os posts do blog aqui.


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© Rafael Peixoto

Sobre
 

Sou um publicitário, roteirista e diretor inquieto, apaixonado por musicais e filmes que gotejem sangue. Gosto de observar as pessoas e capturar suas falas e suas histórias reais. Sou um péssimo piloto de parapente e de ultraleve e um velejador pior ainda, mas toco um violão... Tenho quatro filhos maneiríssemos e uma mulher incrível que me enchem de histórias.

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