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Dez dicas essenciais sobre roteiro

Atualizado: 30 de Mar de 2018

Aprenda com Allan Palmer esses insights que ele gostaria de ter tido quando começou sua carreira



(extraídas do texto "10 screenwriting insights I wish I’d had 25 years ago", de Allan Palmer, e adaptadas por Rafael Peixoto).


1. Entenda porque as pessoas vão ao cinema


Segundo Joseph Campbell, "o que as pessoas querem é se sentir vivas". O cinema não existe pra defender uma causa ou colocar um ponto de vista, isso tudo é consequência. A primazia do cinema é provocar emoção. Se você perde isso de vista, seu roteiro sofre. Se provocar emoção não é o mais importante pra você, então vá ser advogado, jornalista ou acadêmico e esqueça o roteiro.


as pessoas querem é se sentir vivas

2. Filme não é apenas sobre a trama principal


Não me entenda mal, trama A é importante, obviamente, é o que faz as pessoas irem ao cinema. Mas o que faz o filme ser inesquecível são as mudanças internas das personagens, que refletem as nossas mudanças pessoais do dia a dia. Se seu filme é apenas Trama A pau dentro, já era. A Trama A faz você se sentar na cadeira do cinema, mas é a Trama B que te faz voar.


3. Leia os melhores livros sobre roteiros e leia muitos roteiros


Cada um tem suas preferências. As minhas estão listadas aqui neste blog. De todos, o do Vogler é o que considero o mais essencial no desenvolvimento de uma estória, porque ele amarra todos os conceitos numa ideia de que as estórias todas são a mesma desde os primórdios da humanidade (o conceito do monomito). Ele não criou um conceito, mas identificou um. E nele o conflito interno já está presente, é absolutamente universal e funciona pra caralho.


Quanto a roteiros de filmes, le-los pode levar você a entender como se contar uma estória de maneira ao mesmo tempo concisa e poética. Acho o roteiro de Gladiador um achado de escrita. O de Gravidade, idem. Todos os roteiros do Robert Towne. O incrível roteiro de Network. Infelizmente, os roteiristas brasileiros, mesmo produzindo bons roteiros, não os fazem como uma leitura deliciosa, geralmente querem apenas deixar o filme claro pro diretor. Uma caríssima exceção são os roteiros do Paulo Halm, uma leitura fluida e inspirada. Acho que isso vem da tradição da novela, que exige muita escrita em pouquíssimo tempo, sei lá. Leia todos os roteiros que você puder. E aprenda a escrever um roteiro que emocione no papel. O potencial de emocionar na tela é muito maior.


aprenda a escrever um roteiro que emocione no papel, o potencial de emocionar na tela é muito maior

4. O teste das 30 palavras


Sabe aquele papo de logline, um ou dois parágrafos que resumam seu filme? Esquece, isso é muito longo. Para um filme dar certo, a ideia do seu filme tem que caber numa única frase de 30 palavras. Por quê? Porque mais do que isso significa que a ideia é complexa demais. Lembre-se de que a ideia tem que ser simples, o que pode ser complexa é a trama. Se a ideia for complicada demais você dificilmente vai conseguir executa-la em 110 páginas de roteiro e muito provavelmente você vai ser execrado pelo pessoal do marketing da distribuidora. Fora que o público pode se sentir confuso. Ideias simples em tramas complexas. 30 palavras.


a ideia tem que ser simples, o que pode ser complexa é a trama

5. Responda às quatro perguntas básicas:


a) quem é o meu herói? b) o que ele(a) quer? c) o que o(a) está impedindo de conseguir? d) o que está em jogo?


Se você não sabe responder a essas quatro perguntas, seu roteiro está capenga. Sem a primeira, você não tem o elemento chave do seu filme pra gerar empatia, um protagonista voluntarioso com quem o público se identifique. Sem a segunda, a própria motivação do seu herói está em jogo, pra que alguém vai sair de casa e dedicar duas horas a seguir uma pessoa que não sabe o que quer? Sem a terceira, as forças do antagonismo que deveriam ser orquestradas pra derrotar o seu herói não serão tão poderosas para engajar o público na torcida. E sem a última, toda a missão do protagonista perde o sentido. Um herói sem motivação é igual a ator pornô brocha.


6. O segredo da personagem é a contradição


Personagens sem contradição são personagens rasas. Lembra aí: Tony Soprano, um quase psicopata que tem questões mal resolvidas com a mãe e é absolutamente dedicado à família. Hannibal Lecter, um canibal elegantérrimo. Nazaré Tedesco, crudelíssima, pernóstica, borderline e apaixonada pela filha. Dexter, um psicopata que caça psicopatas e é dedicado à família. Félix, uma bicha má que joga a sobrinha no lixo, mas que também é um filho afetuoso. Carminha, uma bandida cujas odiosas maldades têm de berço uma infância miserável. House, um misantropo que despreza as pessoas porque, no fundo, se importa tanto com elas que não consegue se furtar de agir de todas as formas possíveis para salva-las. Shrek, um ogro sensível.


Adicione densidade e contradição às personagens. Sem contradição as pessoas são chatas e previsíveis. E se as personagens são previsíveis, o filme também o será.


sem contradição as pessoas são chatas e previsíveis

7. Pare de guardar segredo sobre a sua ideia


Este é o mito mais imbecil do mundo, que você tem que ficar calado senão alguém rouba a sua ideia e produz por si mesmo. Vou te dar várias razões porque isso é estúpido:


a) 99% das ideias são uma porcaria, e dividi-las com as outras pessoas, com muitas pessoas, pode fazer você perceber isso. Desculpe aí se isso te desanima, mas é assim mesmo. De cada 100 loglines que você cria, com sorte uma ou duas prestam pra virar um argumento e, quiçá, um roteiro. O resto pode ir pro lixo.


b) Se sua ideia é tão boa para ser produzida, é muito provável que, em vez de te roubar, alguém contrate você pra escrever.


c) Ideias não são argumentos, que não são roteiros, que não são filmes. Não existe direito autoral sobre uma ideia. Dificilmente alguém poderia ser acusado de plágio por escrever algo baseado numa ideia. Se você pensar que Rei Leão nada mais é do que Hamlet e que House nada mais é do que o Sherlock Holmes, me responda com sinceridade se você processaria os autores de Rei Leão ou o David Shore, de House, por plágio?


d) Vamos à remotíssima, quase impossível, hipótese de que alguém realmente foi mau caráter e roubou sua ideia, ficou milionário com ela e você ficou na beiça. Se da sua cabeça não consegue sair mais nada além daquela ideia, então o trabalho de roteirista não mesmo é pra você, sua criatura sem criatividade.


e) A biblioteca nacional aceita registro de argumento e custa uma mixaria. Se vc é daqueles neuróticos, registre o argumento e vá pro mundo dividir suas ideias com os outros.


f) Em LA todo mundo divide ideias, nas faculdades, nas ruas, nos estúdios. Se lá, a meca do cinema, isso funciona, porque aqui no Brasil não funcionaria?


8. Às vezes a melhor forma de escrever é não escrever


Não me entenda mal, uma rotina de escrita é essencial e quem acha que escrever depende de inspiração é um idiota imaturo. Escrever é hábito. A minha rotina, por exemplo, vem em sessões: a primeira das 5:00 às 7:30 (sim, eu madrugo todos os dias, gosto do silêncio e a luz é boa), a segunda das 15:00 às 18:00 e a terceira das 21:00 às 23:30, o que dá oito horas por dia. Quando tenho outros trabalhos de publicidade no meio do caminho, cancelo a sessão de escrita da tarde pra me dedicar a eles, mas como sou redator publicitário acabo também mantendo o hábito da escrita nesse tempo. No restante do tempo eu fico com meus filhos, pego uma praia, lavo uma louça, enfim, alimento meu ócio criativo.


quando a cabeça cansa, o melhor que você pode fazer pela sua escrita é não escrever

MAS... o cérebro cansa. E você tem que saber que às vezes a escrita não vai render. Aí, o melhor é se conhecer, dar um tempo, se afastar do texto. Vai ver as quintas em casa do Discovery Home and Health, vai fuçar o Pornhub atrás de ruivas amadoras, coloca no Off e vai curtir uma inveja daquele cinegrafista filmando umas gostosas num paraíso tropical enquanto você está suando no calor senegalesco de Madureira. Quando a cabeça cansa, o melhor que você pode fazer pela sua escrita é não escrever.


9. Arrange um emprego que pague as contas, mas não qualquer emprego


A parada é cruel: viver de escrever é difícil. E ficar sem grana pira tanto a gente que não sobra cabeça pra se escrever. Então, se tiver que arranjar um emprego pra pagar as contas, arranje. Mas faça questão de que seja um trabalho que tenha a ver com escrita ou com interação com outras pessoas. Procurar um trampo no mercado audiovisual é bom: produtor, copidesque, continuista, crítico, professor. Um trampo que te obrigue a escrever, melhor ainda: redator publicitário, escritor de discursos, até mesmo advogado.


Mas a melhor dica mesmo é: tenha um trampo de verdade enquanto aprende o ofício. John Wells, de West Wing, diz que nenhum roteirista é completo se não escreveu uma pilha de pelo menos um metro de material, e isso toma tempo. Vai te exigir um sacrifício. Aí, quando tiver aprendido o ofício, junte uma grana e tire um ano sabático pra correr atras de se tornar um roteirista profissional, vender seu material, participar de eventos, encher o saco de produtoras. Eu demorei 14 anos pra dar esse passo. E não acho que poderia te-lo feito antes. Mas este sou eu, cada um sabe do seu tempo.


10. Escolha um produtor como vc escolheria a pessoa com quem vai se casar


Você achou um produtor que quer fazer seu filme e já que assinar de uma vez, claro! Nem vai pensar duas vezes, né?


Se fodeu. E por isso este é o item mais longo da lista.


Em primeiro lugar, buscar um produtor é uma arte: pesquise, veja o que ele já fez, liste suas preferidas e aí comece a ligar pra cada um deles, venda seu peixe. O Bill Labonia é o cara pra falar disso, o blog dele Roteirista Empreendedor vai te ajudar pra caramba na transição de artista pra vendedor, que é essencial. Não fique tenso, mercado no Brasil tem, é difícil furar, mas tem.


Entenda que ao escolher um produtor você está fazendo uma aliança de anos. Tem filme que demorou 20 anos pra ser produzido. Você escolheria afobadamente alguém que pode dividir dois, cinco, talvez dez anos de sua vida?


Você escolheria afobadamente alguém que pode dividir dois, cinco, talvez dez anos de sua vida?

Outro lance: um produtor que não entende seu filme vai fazer uma cagada que vai prejudicar, sobretudo, a sua carreira. Ainda tem o aspecto do respeito. Um produtor que não respeita você vai te sacanear, então não se porte como um coitado, um mendigo pedindo esmola. Não aceite qualquer produtor, com discernimento, paciência e preparo, se vc for realmente bom, o produtor certo vai aparecer.


Escolha um produtor que entenda o papel fundamental na relação produtor - escritor: o trabalho do produtor é identificar o que não está funcionando. O seu, é corrigir esses erros. Tem muito produtor que vai chegar pra você e falar, "olha, eu não sou escritor, mas eu acho..." e aí vai dizer tintim por tintim o que você deve escrever no próximo tratamento. Esta é a receita para o desastre. Um produtor de verdade vai dizer coisas como: "este antagonista está fraco", "tem uma barriga no segundo ato", "acho que falta uma conexão maior entre essas duas personagens pra engajar melhor a trama B". Aí você vai e conserta. Sem ciúme da sua obra.


Quando fiz a Master Class IV com o Aguinaldo Silva aconteceu uma coisa assim: fiz uma cena que ficou ruim, sem pé nem cabeça, diálogos descolados da essência da personagem. O Aguinaldo apontou os erros da cena, onde o diálogo estava carecendo de força, onde a trama se embolava. Experiente em colaboração e em coordenação de sala de roteiros mas sabendo que ali era uma aula, ele me olhou com uma cara de "quer que eu te diga como consertar?" E eu saquei. Antes que ele falasse, eu virei e falei, "entendi, pode deixar que eu conserto". Ele, elegantíssimo, deu de ombros e falou: "Tá bom." No outro dia eu trouxe a cena ajeitada, ele leu e aprovou. Este tipo de relação é o que você tem que esperar de um produtor. Que ele indique a falha, mas quem corrige é você. Afinal, você é o escritor. E neste caso específico, ali eu tinha um dos maiores autores de novela do Brasil se coçando pra me dizer como consertar aquela lambança, mas respeitando meu processo criativo.


Outro questão: a função principal do produtor é ser um puta vendedor. Acontece que a história não traz muitos vendedores que primam pela ética. Então, se vc achar um produtor que venda feito um mercador árabe e seja ético como um judeu hassídico, agarra esse cara, beija ele na boca e casa.


Faça estas perguntas para si mesmo, em relação ao seu produtor:


a) O que ele já produziu? b) Você gosta do que ele produziu? c) Os filmes dele contam boas estórias? d) Ele fez um filme que fez sucesso, ganhou prêmios e foi exibido no exterior? e) Os roteiristas gostam de trabalhar com ele na parte criativa? f) Ele é conhecido por sacanear roteiristas?


Esta última pergunta é essencial. Te digo que tem grandes produtores, premiados e tudo, que já deram muito calote por aí.


pra ter o melhor produtor o seu roteiro tem que estar tão polido a ponto de cegar de tanto brilho

Seja cri cri e escolha o melhor produtor pra você. Mas saiba que pra ter o melhor produtor o seu roteiro tem que estar tão polido a ponto de cegar de tanto brilho. Se o seu produto for ruim, esqueça esta carreira e vá fazer algo que te dê mais dinheiro. É muito ruim ser péssimo no que se ama, mas às vezes acontece.


Quer saber mais? Não deixe de ler estes posts:


- Livros que todo roteirista deve ler (essencial para iniciantes!);

- Como se tornar um roteirista (para quem quer fazer transição de um hobbie para uma profissão);

- 10 mandamentos do roteirista para ter trampo a vida toda (para quem quer se manter trabalhando na indústria, independente de crises passageiras);

- 10 Dicas para aguçar a criatividade (travou? bloqueio criativo não é desculpa, veja como se livrar desse impasse).


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© Rafael Peixoto

Sobre
 

Sou um publicitário, roteirista e diretor inquieto, apaixonado por musicais e filmes que gotejem sangue. Gosto de observar as pessoas e capturar suas falas e suas histórias reais. Sou um péssimo piloto de parapente e de ultraleve e um velejador pior ainda, mas toco um violão... Tenho quatro filhos maneiríssemos e uma mulher incrível que me enchem de histórias.

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