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Como encontrar uma produtora?

Este é um desafio que requer habilidades de vendedor e muita pesquisa




Ser produzido é o fim de um longo trabalho na vida de um roteirista, que começa em seus estudos, se perpetua na criação de seu portfolio e culmina na venda de seu produto para uma produtora.


A produtora é essencial para te dar vantagens competitivas com canais. Mesmo que você seja selecionado para realizar um pitching em um evento como a Rio2C (antigo Rio Content Market), Rio Market ou FRAPA, saiba que os canais te ouvem com muito mais atenção se uma produtora está com você.


os canais te ouvem com muito mais atenção se uma produtora está com você

Este trabalho depende de uma preparação prévia, que normalmente inclui:


1. Estudo - esteja preparado para se tornar um roteirista profissional, aplique-se em refinar a sua arte. Leia este post com a minha lista de livros essenciais.


2. Tenha um portfolio interessante e variado, que inclua pelo menos um roteiro de longa de baixo orçamento, um roteiro de curta, uma bíblia de série de TV original com piloto e um spec script de série que esteja no ar.


3. Tenha algum prêmio de roteiro nas mãos, consulte esta lista no Film Freeway para os melhores prêmios internacionais de roteiro, escolha o seu melhor roteiro e inscreva-se.


4. Tenha um CNPJ, preferencialmente ME, porque tem produtora que não aceita MEI. Roteirista sem CNPJ é como carro sem motor.


5. Participe de uma rodada de negócios no Rio2C, no Rio Market ou no FRAPA. Isso custa caro, a primeira provavelmente não vai dar em nada, mas te dá acesso a uma lista de contatos valiosíssima e te treina para os pitchings que virão.


6. Mude-se para o Rio ou para São Paulo. Me desculpe se isso decepciona você, mas o mercado está nessas cidades, que concentram a imensa maioria das produtoras. Reuniões são chamadas de última hora e se você não estiver disponível, já era. OK, a Ancine tem um monte de políticas para descentralizar a produção, mas a real é que o mercado tem suas dinâmicas e mesmo os maiores mercados do mundo, como o americano, o indiano, o chinês, o australiano e o canadense, concentram suas produções em uma ou duas cidades. Por mais que o governo queira fazer diferente, é impossível brigar. Leia neste post um pouco mais sobre isso.


Isso vai te exigir tempo e dinheiro. Paciência, é assim com qualquer profissão qualificada. Se você não investe em você, quem vai?


Se você não investe em você, quem vai?

Depois que você se preparou para sua busca, comece listando as produtoras que você acha mais interessantes. Eu geralmente faço isso observando quem produziu os filmes e séries de que gosto (a logo da produtora sempre assina os créditos). Note que estamos falando de produtoras no Brasil, lá fora o processo é mais complicado, então se você não assiste séries e filmes nacionais, hora de começar.


Busque entre os associados da BRAVI as produtoras em atividade. Entre no site de cada uma delas. Pesquise:


a) portfolio da produtora (para saber que tipo de material ela produz);

b) quem são as pessoas que mandam (reunião tem que ser com chefe);

c) que prêmios já ganhou;

d) se existe um canal específico ou distribuidora com quem a produtora tenha trabalhado mais (pode indicar uma relação de confiança que aumenta as chances de ter seu roteiro produzido).


Faça uma hierarquia por ordem de aderência ao seu projeto. Agora faça-se essas perguntas essenciais, listadas pelo incrível roteirista Allan Palmer:


a) O que ele ela produziu?

b) Você gosta do que ela produziu?

c) Os filmes dela contam boas estórias?

d) Ela fez um filme que fez sucesso, ganhou prêmios e foi exibido no exterior?

e) Os roteiristas gostam de trabalhar com ela na parte criativa?

f) Ela é conhecida por sacanear roteiristas?


As respostas para estas perguntas estão no IMDB e no Google. Espane a preguiça e procure incessantemente, porque um contrato com uma produtora é uma relação de no mínimo um ano na fase de prospecção e pode chegar a dez anos ou mais se seu material for produzido. Não dá para ser leviano com algo que pode durar mais do que a maioria dos casamentos e nem tem sexo envolvido pra aliviar a tensão.


Com este mundo de informações em mãos, reduza sua lista para cinco produtoras, e faça questão de que pelo menos duas delas não sejam as majors (O2, Conspira, Gullane, Total, Academia, Mixer e Morena). E por quê?


Em primeiro lugar, as majors têm um monte de projetos próprios em sua pipeline e o seu é mais um. Se elas têm mais acesso a canais e a ferramentas de produção, como mais pontos na Ancine, as estratégias de negócios delas podem não priorizar seu projeto num determinado momento, e suas contas não esperam. Para uma produtora média o seu projeto pode ser "O" projeto, e ela vai dar um gás fodido para fazê-lo virar realidade.


As grandes também tendem a ter roteiristas da casa, o que torna mais difícil a entrada de um estreante. Nisso a Academia de Filmes se destaca, ela realmente acolhe novos roteiristas.


Por último, se você é daqueles que se recusa a se mudar de onde mora para vir ao Rio e a São Paulo, uma produtora da sua cidade ou da capital do seu estado pode não ser das maiores mas terá acesso a verbas específicas da Ancine e pode ser que você consiga ser produzido sem precisar virar paulistano ou carioca. As grandes estão TODAS no Rio ou em São Paulo, o que realmente corrobora minha opinião de que todo artista tem que estar onde o negócio ferve. Mas quem sabe?


Pegue email e telefone dos donos das cinco produtoras escolhidas. Pode ser por meio da planilha de contatos da Rio2C ou do Rio Market. Pode ser fuçando no site deles. Não é difícil.


Mande um email para cada produtora, sucinto.


Se está vindo referenciado por algum profissional tarimbado, diga logo.

Comece com uma linha ou duas dizendo quem você é e o que já fez. Se não tiver experiência, diga onde se formou e que cursos fez. Se está vindo referenciado por algum profissional tarimbado, diga logo. No início eu sempre citava que tinha sido aluno do Aguinaldo Silva e essas coisas realmente abrem portas, em especial cursos fora do Brasil e aqueles com processo seletivo escroto como as Masters do Aguinaldo, onde menos de 10% dos postulantes viram alunos.


Depois mencione sucintamente os trabalhos deles de que você mais gosta e que você, como criador, tem produtos muito interessantes e enxerga uma possibilidade de sinergia.


Termine pedindo uma reunião e dando a possibilidade de agenda. Eles vão escolher dentro do seu intervalo. Se você for de fora, se coloque à disposição para um skype.


Nunca, jamais, de forma alguma, mande um roteiro neste primeiro contato. É amador e irá irremediavelmente para a lixeira. Ninguém lê material não solicitado.


Nunca, jamais, de forma alguma, mande um roteiro neste primeiro contato.

A maioria delas responderá porque nenhuma produtora quer deixar passar uma possível galinha dos ovos de ouro. Este primeiro acesso realmente não é difícil. É claro que tem umas que nem vão te responder, eu poderia citar umas quatro ou cinco que sequer tiveram a delicadeza de retornar o email. Mas rejeição é a única constante na vida de um roteirista. Acostume-se.


Marcada sua reunião, prepare-se: compre sua passagem com antecedência se você vem de fora, preferencialmente chegue no dia anterior. Se você precisou viajar, o ideal é marcar várias reuniões na mesma semana. Eu faço isso quando vou a São Paulo uma vez por mês, minha agenda é sempre intensa porque, afinal, meu dinheiro não é capim. Imprima sua(s) bíblia(s)/one sheet(s)/roteiro(s), deixe tudo encadernado bonitinho no wire-o. Imprima seu cartão de visitas. Faça esse material com um designer profissional, nada de apresentar bíblia no word.


No dia da reunião arrume-se sem exagerar (roteirista tem sempre que parecer mais pobre do que o produtor, gera empatia e dá aquela pinta de artista desalinhado que todo mundo adora). Confira seu material e deixe os cartões de visita à mão, eu coloco sempre no bolso da camisa, dentro de um porta-cartões bonitinho. Chegue com antecedência. Se você chegou na hora marcada você já está atrasado. O ideal é chegar pelo menos 15 minutos antes para dar tempo de ir ao banheiro, lavar o rosto e se acalmar, porque nessa hora, se você é inexperiente, você estará suando. Dica de ouro: jamais use roupa escura. Se estiver quente e você suar - o que pode acontecer mesmo na Antártida se você ficar nervoso -, as blusas escuras deixam aparecer aquela bola de suor no seu sovaco que te faz parecer um amador. Por isso chegar com antecedência é tão importante, dá tempo de fazer seu ar esbaforido dar lugar a uma fleuma descolada. Tem produtora que até vai achar bonitinho o roteirista nervoso, mas a maioria vai te achar um despreparado.


Sorria, aperte as mãos, troque cartões. Seja simpático. E deixe a produtora falar. Eles adoram falar deles mesmos. Mais do que mostrar interesse nesse prep talk, você tem que se interessar de verdade: é nessa conversa preliminar que você saca os trejeitos, os gostos pessoais e assim pode evitar cometer gafes.


Quando for falar, jamais critique projetos dos outros. Você é um roteirista, e não um crítico de cinema. Fora que a chance de criticar um projeto de um conhecido ou no qual a produtora tenha de algum modo se envolvido é grande, porque o meio é miúdo. Se ela te pedir opinião sobre um projeto dela, seja sincero com o que você gostou e omita o que não gostou. Mas não minta. As produtoras sabem dos problemas de seus produtos. Se for forçado a dizer a verdade, faça considerações técnicas e aponte o que você teria feito para melhorar o produto. Mas, na boa? Não deixe te colocarem nessa sinuca.


Fale de você na primeira pessoa, dê destaque ao que te coloca como uma voz nova no mercado ou dono de uma visão singular. Mas não seja pedante.


Ao longo da conversa crie ganchos para introduzir seus projetos, um a um. Seja sucinto, use seu elevator pitch de um minuto para falar do projeto e se tiver abertura aprofunde o papo. Se você só está levando um projeto, estenda-se um pouco mais, mas seja criterioso nas informações que presta.


Mostre paixão pelo seu projeto. Se seus olhos brilharem os olhos da produtora vão brilhar também. Mostre-se disponível para aceitar sugestões de melhora no roteiro, produtoras gostam de dar pitaco e eles são valiosos. Seja flexível e acima de tudo passe segurança.


Mostre paixão pelo seu projeto.

Finda a reunião, no mesmo dia mande um email agradecendo e encaminhando em formato digital o material que vc deixou em meio físico. E aguarde.


Aguarde.


E aguarde.


No término do segundo mês, faça um follow up com um email curto. Se eles já tiverem analisado, vão te responder. Se um projeto os interessou, pare de apresentar este projeto. Se os demais foram liberados, continue seu processo de venda.


Tenha paciência, a negociação com produtoras leva meses e a confirmação de uma produção leva facilmente dois anos ou mais.


Se você esgotou as possibilidades com as suas cinco preferidas, recomece o ciclo.


E não esqueça: rejeição faz parte. Insista. Mas não seja mala.


rejeição faz parte

Quer saber mais? Não deixe de ler estes posts:


- Como se tornar um roteirista (para quem quer fazer transição de um hobbie para uma profissão);

- 10 mandamentos do roteirista para ter trampo a vida toda (para quem quer se manter trabalhando na indústria, independente de crises passageiras);

- 10 Dicas para aguçar a criatividade (travou? bloqueio criativo não é desculpa, veja como se livrar desse impasse).


Acompanhe todos os posts do blog aqui.


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© Rafael Peixoto

Sobre
 

Sou um publicitário, roteirista e diretor inquieto, apaixonado por musicais e filmes que gotejem sangue. Gosto de observar as pessoas e capturar suas falas e suas histórias reais. Sou um péssimo piloto de parapente e de ultraleve e um velejador pior ainda, mas toco um violão... Tenho quatro filhos maneiríssemos e uma mulher incrível que me enchem de histórias.

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