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Criando uma Série de TV

Atualizado: 30 de Mar de 2018

Uma série de TV é um trabalho árduo, mas recompensador #TVSeries #SeriesdeTV #SeriesAddicted




As pessoas assistem séries na TV e não têm a menor ideia da obsessão e do trabalho descomunal que esse tipo de entretenimento carrega para seu autor. Estou escrevendo algumas, então vou dar um panorama rápido sobre como funciona criar uma coisa assim:


Tudo começa com um conceito

1. Tudo começa com um conceito, uma ideia. Só que ideia tem de sobra por aí. De cada 20 ideias que tenho, uma, com sorte, é matéria prima real para se criar uma série. Hoje tenho um arquivo onde guardo mais de 150 ideias originais de séries e filmes e que visito sempre. Destas todas, apenas três viraram séries vendáveis e mais três ou quatro têm potencial de negócio.


2. Depois a gente cria uma logline, uma frase de NO MÁXIMO 30 PALAVRAS que resuma o conceito da série. Por que 30 palavras? Porque se passar de 30 o conceito é complexo demais para ser compreendido. Veja bem, conceito simples não é trama simples. How To Get Away With Murder tem uma trama super complexa tendo por trás um conceito simplíssimo: "Uma professora de direito penal ensina seus alunos a livrarem supostos assassinos da cadeia enquanto usa seus conhecimentos em benefício próprio e de seus protegidos." Deu pra sacar a necessidade de poder de síntese que um autor precisa ter?


3. Depois a gente começa a desenhar o universo da série: sua geografia, se vai ser realístico ou fantasioso, se os cenários vão compor tanto como cenografia quanto como metáfora do desenvolvimento emocional das personagens (geralmente os dois), as leis e regras que regem este universo, os códigos culturais, enfim, tudo. É uma etapa de muita pesquisa, muita mesmo. Nas minhas séries, toma pelo menos três meses. Fotos, vídeos e músicas de referência são essenciais para criar o clima do que se está criando.


4. Aí vêm as personagens, protagonistas, de apoio e também aquelas que vão aparecer em apenas um episódio mas têm função dramatúrgica importantíssima no desenvolvimento das personagens fixas. Isso significa que, das 30 personagens fixas que compõem em média uma série, você precisa desenvolver uma história para cada uma: quantos anos tem; quem são seus pais, seus avós, seus irmãos; como foi a infância dela; que eventos em sua vida marcaram sua personalidade; qual é sua formação acadêmica; onde nasceu; quem são seus amigos e inimigos; qual é sua motivação e os obstáculos que encontra para alcançar seus objetivos; quais são seus defeitos e qualidades; como ela fala, que palavras usa; como é sua personalidade; se há traços físicos que são relevantes dramaturgicamente para serem determinados pelo autor, como por exemplo uma deficiência, uma cicatriz, a cor da pele e por aí vai - mas atenção, isso só pode ser determinado se tiver efeito dramatúrgico de fato (ex.: a cor da pele do Foreman serve para que House trabalhe várias questões de raça e classe social), senão você limita o processo de escolha dos atores. Cada personagem principal termina, no documento oficial da série que a gente chama de Bíblia, com pelo menos uma página que o descreva (na minha Bíblia, duas) e os outros importantes e fixos, com pelo menos meia página. Os secundários, basta um parágrafo ou dois.


das cerca de 30 personagens que criei, eu sei o que vai acontecer com cada uma delas em quatro temporadas

5. Aí você cria os arcos das personagens, arcos longos, de vários anos. No meu caso, das cerca de 30 personagens que criei por série, eu sei o que vai acontecer com cada uma delas em quatro temporadas, quem morre, quem desaparece, quem se muda, quem se casa, cada desgraça e maravilha que acontece com suas personagens já estão definidas antes de você escrever a primeira letra no roteiro do seu piloto. Mas, é claro, isso pode mudar.


6. Depois vêm as loglines e sinopses curtas de cada episódio, em que esses arcos e a trama das temporadas e da série como um todo ficam mais claros. Nas minhas séries, tenho criadas as sinopses de 4 temporadas de 13 episódios cada, o que significa que já criei e comecei, em cada uma das séries, o desenvolvimento de 52 histórias diferentes que, se filmadas na íntegra, vão totalizar 2.184 minutos de conteúdo audiovisual, ou mais ou menos a mesma coisa que 20 longa-metragens. Em termos de texto, isso significa, só de roteiros (esquecendo toda essa parte de planejamento), aproximadamente 19 mil páginas, se contarmos em média 6 tratamentos (versões) para cada roteiro, e estou sendo econômico. Aguinaldo Silva sempre faz pelo menos 7 ou 8 versões do primeiro capítulo de suas novelas, às vezes muito mais. Pra quem é fanático por reescrita como ele, e eu também, só mesmo o prazo de entrega do material para o produtor põe fim nesse processo louco de polir o universo que você mesmo criou.


7. Nessa hora vem uma etapa divertida: quando você define as regras de cada episódio. Sim, uma série tem um manual. O autor define exatamente o que acontece em cada minuto de cada episódio e essa grade de eventos, em vez de aprisionar os roteiristas colaboradores, na verdade os liberta, especialmente nas séries procedurais, como são conhecidas aquelas séries policiais em que um crime é desvendado por episódio. Pensa no Criminal Minds: tem que abrir com um homicídio, no minuto tal tem o perfilamento do criminoso, o principal suspeito é solto porque acontece outra morte no minuto tal, tudo esmerdalha no último break antes do último ato e depois tudo se resolve. E aí os roteiristas ficam pirando nesses elementos, criando criminosos cada vez mais alucinados, eventos cada vez mais maneiros. Mas essa estrutura, essa grade, é criada pelo autor. É aqui também que se define quantas tramas serão abordadas no episódio.

8. No final desse processo você termina com quatro documentos: a Bíblia de desenvolvimento da série, que é só sua e dividida com os roteiristas colaboradores (as minhas têm de 50 a 150 paginas); a Bíblia oficial da série que vai para produtora (as minhas têm de 20 a 55 paginas); um pitch doc, documento sintético de venda para a produtora ganhar parceiros, patrocinadores e o canal (o normal é entre 6 e 20 páginas); e a one sheet, um resumo de uma única página dessa bagaça toda. E todo este material, com exceção da Bíblia de Desenvolvimento, obrigatoriamente tem que passa na mão de um designer para ficar apresentável para quem você for vender.


9. Aí, com tudo isso na mão, a gente vai fazer o piloto: desenvolver a sinopse numa beat sheet, que é uma planilha que destaca os principais eventos do roteiro, que depois vira uma escaleta (cena a cena do roteiro, com cabeçalho, sem diálogos e com descrições não muito detalhadas), que daí vira um roteiro. No piloto de uma das minhas séries foram 12 beat sheets, sendo que as primeiras seis foram totalmente diferentes umas das outras e as ultimas seis foram melhoramentos da sexta versão, 10 versões da escaleta e agora estou no quinto tratamento (versão) do roteiro. E ainda não estou satisfeito. Devo começar o sexto tratamento em abril e uma nova versão do roteiro em formato de longa, a pedido da produtora, que pode depois ser convertido num piloto de dois episódios. Provavelmente, até ir ao ar, se for ao ar, este piloto terá mais uns sete ou oito tratamentos, porque TV é um trabalho coletivo e as pessoas - produtora, canal, diretor, focus groups - querem dar suas opiniões e merecem ser ouvidas, e geralmente são opiniões muito qualificadas. E todos pagam o salário do escritor.


TV é um trabalho coletivo

10. Se uma das séries for comprada e produzida, o que tenho forte esperança de que aconteça, aí, com os atores e diretores escalados (e o autor também colabora nessa definição), vem a leitura do roteiro do piloto com os atores e o diretor, em volta de uma mesa, com um cronômetro para contar o tempo e evitar passar a duração de cada episódio. E aí a gente descobre que um diálogo ficou enrolando na língua ou muito on the nose (óbvio demais), que uma informação que está no diálogo fica melhor na cena ou vice-versa (TV é diferente de cinema, não se pode esquecer que a chance de alguém estar ouvindo a TV, e não vendo, é grande) e, pior dos mundos, que o tempo estourou. Resultado: nova versão do roteiro, com foco nos diálogos, isso sem mexer demais na estrutura porque, s essa altura, a produção já está a pleno vapor, cenário, figurino, tudo.


11. Aí com a produção rolando o imponderável acontece: ator fica doente, morre, tem filho, essas coisas. Você joga fora meses de trabalho e começa de novo. Ou então algum ajuste de custo acontece e você tem que mudar a trama porque aquela cena de perseguição caríssima vai ter que desaparecer do seu roteiro. É por essas e outras que, nas cidades das minhas séries, se não for estritamente necessário dramaturgicamente, nunca chove: chuva é um pesadelo logístico caro, isso para ficar apenas num exemplo. O roteirista esperto guarda cenas coringa na manga, aquelas que, se o orçamento apertar, a gente tira de uma locação com 30 figurantes e joga num cenário interno com cinco sem mexer na trama. E sabe aquele episódio que toda série tem, com as personagens lembrando acontecimentos anteriores e discutindo? Isso é o típico episódio de dinheiro que acabou, a produção tem que encher a grade de episódios mas a grana é pouca, então o roteirista sofre e cria essas aberrações cheias de cenas já produzidas.


Se o público odiar sua série, prepare-se para reescrever tudo, talvez até perder o direito de escrever a série que você mesmo criou

12. Se o público odiar sua série, prepare-se para reescrever tudo, talvez até perder o direito de escrever a série que você mesmo criou (isso é muuuuuuito comum) e reze para sua carreira não ter acabado logo no início. Se o público amar, mas se apaixonar por uma personagem secundária em vez do seu protagonista, você também está lascado. O Jesse de Breaking Bad morreria na primeira temporada. Acabou sendo co-protagonista. Às vezes o público é sábio, porque o Jesse criou as melhores situações para o crescimento do Walter White.

Das minhas 14 horas de trabalho diário, minhas séries ocupam em média metade do tempo e todo o tempo do fim de semana, quando geralmente trabalho de 6 a 8 horas por dia. Se e quando uma delas começar a ser produzida, ela terá consumido pelo menos 3 mil horas da minha vida, ou 17 meses de trabalho de um profissional de carteira assinada que trabalhe apenas as 8 horas obrigatórias. Isso tudo sem receber nenhum tostão pelo trabalho até o momento em que ela for comercializada.


Fácil, né?


Quer saber mais? Não deixe de ler estes posts:

- Livros que todo roteirista deve ler (essencial para iniciantes!);

- Como se tornar um roteirista (para quem quer fazer transição de um hobbie para uma profissão);

- 10 mandamentos do roteirista para ter trampo a vida toda (para quem quer se manter trabalhando na indústria, independente de crises passageiras);

- 10 Dicas para aguçar a criatividade (travou? bloqueio criativo não é desculpa, veja como se livrar desse impasse).

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© Rafael Peixoto

Sobre
 

Sou um publicitário, roteirista e diretor inquieto, apaixonado por musicais e filmes que gotejem sangue. Gosto de observar as pessoas e capturar suas falas e suas histórias reais. Sou um péssimo piloto de parapente e de ultraleve e um velejador pior ainda, mas toco um violão... Tenho quatro filhos maneiríssemos e uma mulher incrível que me enchem de histórias.

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