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Ahab e as subtramas Moby Dick

Atualizado: 30 de Mar de 2018

O que fazer quando seu roteiro deixa de ser um prazer e vira um monstro?



Às vezes a gente se apaixona por um roteiro. Se enfronha na pesquisa, escreve por horas, não consegue pensar em outra coisa. Faz uma logline matadora, uma sinopse incrível, um argumento sólido. E aí a gente foca nas personagens, nas suas backstories e nas tramas paralelas para enriquecer o filme. É claro, não foi isso o que a gente aprendeu?


Aí a gente relê o Snyder e redige as "seis coisas que precisam de conserto" em cada personagem. Cria uma história para cada um deles. E se afeiçoa por essas histórias que só servem, na real, para te dar conhecimento da personagem para que você escreva melhor seu roteiro, não estão ali para entrar no seu filme. Mas elas são tão legais! O seu filme vai crescendo. Você se sente obrigado a colocar uma cena em flashback do seu protagonista, ou trazer uma personagem do passado dele para acrescentar uma camada a mais na trama B do roteiro. E subitamente o plot principal do seu filme acaba dando espaço para que uma trama sem importância surja, com o objetivo de tornar a trama secundária do filme mais profunda. Aí você faz a mesma coisa com seu antagonista. Afinal, você passou meses criando aquelas histórias, e agora não vai usa-las? Este é seu projeto de vida!


Aí, meu velho, foi mal: você virou Ahab.


Sabe o Ahab? O capitão perneta e taciturno de Moby Dick, que não conseguia fazer mais nada além de perseguir a imensa baleia branca que comera sua perna? Pois é, o seu filme é como a vida do Ahab: congelada, sem ir adiante, enquanto você persegue a sua baleia branca - as muitas backstories e tramas paralelas que você criou e que na real não fazem diferença no seu filme - porque elas "comeram a sua perna" quando fizeram você perder um tempo imenso inventando-as.


Você resolve pegar esses "filmes dentro do seu filme", junta tudo e tenta fazer uma suruba cinematográfica. Mas o roteiro, meu caro, é uma arte ciumenta.

Todo roteirista passa por isso. Arte é paixão. Você começa apaixonado por seu filme, e aí seu filme te leva a mil outras histórias com potencial para virarem filmes por si e você se apaixona por elas, se envolve com elas e deixa seu filme de lado. Você pega esses "filmes dentro do seu filme", junta tudo e tenta fazer uma suruba cinematográfica. Mas o roteiro, meu caro, é uma arte ciumenta. Ele não aceita outra pessoa dividindo a cama.


Olha só, isto não é a mesma coisa de dizer que filmes multitramas como Pulp Fiction, Short Cuts e tantos outros não funcionam. É claro que funcionam. Mas eles foram pensados e estruturados assim. As muitas tramas existem para dar profundidade à ideia governante do filme. A estrutura está sólida. Cada microtrama se intersecta e cria a teia da trama principal, dá a ela sua forma.


O problema é quando uma trama paralela entra em seu filme e não acrescenta porra nenhuma, mas você colocou tanto tempo e esforço naquilo, gostou tanto de inventar aquela parada, que você não consegue se desapegar.


Seu roteiro incha, fica com duzentas páginas. Sua trama principal desanda. Sua logline brilhante vira um "logparagraph". Seu argumento não faz mais sentido.


E aí você se fodeu.


Bem vindo ao clube. Todo roteirista já caiu nessa.


Mas como resolver essa merda?


Muito simples: escreva até o final esta bagunça absurda, enfie todas as tramas, sem muito critério. Encontre a Moby Dick. Viva o seu bacanal dramatúrgico. Porque, se você não terminar seu roteiro você simplesmente não terá absolutamente nada o que consertar. E vai começar odiar o roteiro que você um dia amou, vai ficar decepcionado e aí, em vez de perder tempo apenas com tramas paralelas, você jogou fora todo os meses que você se dedicou a algo que pode sim virar um grande filme. Termine. Escreva "FIM" em maíusculo centralizado no fim da página 256. Coloque de lado seu senso crítico. Finja que você não sabe que este monstro que você pariu é uma merda.


Finja que você não sabe que este monstro que você pariu é uma merda.

Mas, depois disso, você precisa ser mais esperto que o Ahab.


O Ahab foi lá, tentou caçar a baleia e acabou se fodendo bonito. No seu roteiro, isto seria o equivalente a você tentar arranjar um jeito de manter aquelas tramas no seu filme. Aí você pensa: "vou fazer isso virar uma série". Esta é a hora em que você "morre". Esta é a hora em que a Moby Dick derrota o Ahab. Não é a solução. Se seu filme fosse uma série, você o teria concebido como uma série desde o início, o que não foi o caso. Desapegue. Se um dia aquela ideia for virar uma série, seu processo de criação será diferente e a sua série só terá a ganhar por ser inspirada num filme de sucesso.


Seja esperto. Deixe o monstro disforme de 256 páginas descansar por umas duas, três semanas. Talvez mais, dois ou três meses, se você não tem prazo. Esqueça dele. Dê tempo para que a paixão pelas subtramas arrefeça. O ideal é até começar outra coisa, um novo filme leve e descompromissado com o qual você ainda não está tão envolvido, tipo uma trepadinha casual.


Aí, meses depois, você acorda, toma um café, coloca Metamorphisis do Strauss pra tocar e senta o rabo pra reescrever seu roteiro.


Com a perspectiva do tempo e a paixão pelas subtramas relegadas ao ostracismo, as coisas ficam mais claras. Você começa a vislumbrar as possibilidades de corte. E cortar sem dó é o que você precisa fazer. Mas e o flashback lindo do protagonista com o pai morto? Uma frase bem colocada no contexto de um bom diálogo resolve e economiza três páginas. Mas e aquela cena que mostra o lado bom do meu vilão, e na qual meu protagonista não está presente? Se ela não move a história pra frente e não se relaciona com seu herói, corte ou modifique-a para que realize as três funções - dar profundidade ao seu vilão, fazer sentido na jornada do seu herói e avançar a trama.


A tesoura fica mais fácil quando a gente não está apaixonado.

A tesoura fica mais fácil quando a gente não está apaixonado. Quando você vê, as 256 páginas viraram 110, seu roteiro está enxuto e pronto para ser filmado. Na minha experiência, este processo de corte é rápido porque o tempo afastado do roteiro te deu perspectiva e reacendeu o seu verdadeiro amor pela trama principal. Seu roteiro fica redondo e você fica feliz com o resultado. Na linha Pollyanna e o jogo do contente, você ainda tem no seu computador um monte de storylines que podem virar filmes dali a um tempo, ou seja, nada foi perda de tempo.


Não seja o Ahab. Faça as pazes com a Moby Dick.


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- Livros que todo roteirista deve ler (essencial para iniciantes!);

- Como se tornar um roteirista (para quem quer fazer transição de um hobbie para uma profissão);

- 10 mandamentos do roteirista para ter trampo a vida toda (para quem quer se manter trabalhando na indústria, independente de crises passageiras);

- 10 Dicas para aguçar a criatividade (travou? bloqueio criativo não é desculpa, veja como se livrar desse impasse).


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© Rafael Peixoto

Sobre
 

Sou um publicitário, roteirista e diretor inquieto, apaixonado por musicais e filmes que gotejem sangue. Gosto de observar as pessoas e capturar suas falas e suas histórias reais. Sou um péssimo piloto de parapente e de ultraleve e um velejador pior ainda, mas toco um violão... Tenho quatro filhos maneiríssemos e uma mulher incrível que me enchem de histórias.

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